Pedro Calado inicia caminhada pelo título mundial do Big no México

Um big rider de 21 anos tem dado o que falar nas sessões mais pesadas e ameaçadoras. Em um mundo dominado por surfistas mais velhos, alguns com o dobro de sua idade, o carioca Pedro Calado se firmou como um dos principais nomes da modalidade mais extrema do esporte. A busca pelo título mundial é o seu grande objetivo na temporada de 2017, que será aberta em Puerto Escondido, no México. A janela do campeonato está aberta e termina em 31 de agosto.

Vice-líder do Circuito Mundial de Ondas Grandes em 2016, atrás apenas de Grant “Twiggy” Baker, Calado já está no pico e aliou a sua preparação com surfe, apneia estática e natação voltada para as ondas grandes. O carioca, que poderia ser jogador de futebol ou até mesmo piloto de helicóptero se não fosse o surfe, hoje sonha em conhecer Teahupoo, no Taiti, uma das mais temidas bancadas de coral do mundo, mas, por enquanto, concentra os seus esforços em suas metas no Tour.

Os primeiros passos foram aos oito anos por influência do pai. Ele começou a disputar os circuitos amadores aos 12, mas desistiu de competir aos 16 e optou por outra praia. Se sentia cada vez mais à vontade nas ressacas e em mar grande. O menino atirado que parece não ter medo do perigo foi descoberto por outro big rider carioca, Felipe Cesarano, o Gordo, em um concurso de fotos. Calado venceu e viajou ao lado do mentor para o Havaí. Era a sua primeira vez na meca do esporte, e ele já encarou Jaws como um veterano. Em entrevista ao Globo Esporte, Calado contou um pouco sobre sua carreira.

Como foi o seu início no surfe?

Comecei a surfar aos oito anos e a competir aos 12 anos. Eu comecei a participar de Sul-Americanos e resolvi levar a sério a competição. Investi e treinava toda a semana, só não surfava direto porque eu estudava, mas eu surfava duas vezes por semana, treinava e tinha um treinador na época, mas eu não me dava muito bem nos campeonatos. Não alcançava o resultado que eu queria e várias vezes ficava estressadão, chorava e tudo. Aos 16 anos, eu decidi que queria parar de competir nos circuitos amadores que eu corria e resolvi pegar onda naturalmente, por lazer, no final de semana. Foi nesta época que eu conheci o Gordo. Eu sempre sempre gostei de pegar onda grande nos mares aqui do Rio com o meu pai, que surfava e puxava o meu nível. Foi ago que nasceu dentro de mim e veio até um pouco do meu pai.

E o começo nas ondas grandes? 
Com 16 anos, eu conheci o Gordo através de uma promoção que ele fez, com o garoto de até 16 anos que postasse a foto da maior onda aqui no Rio. Eu postei uma foto minha na Macumba e eu ganhei essa promoção. A onda não era muito grande, mas tinha uns 2m, um tamanho para o Rio. E Na época, ele estava indo para o Havaí e me convenceu de ir para lá. Eu não tinha patrocínio, mas tive o apoio dos meus pais, que puderam chegar junto com a passagem e tal. E o Gordo me deu uma moral lá na casa, que é a famosa casado Gordo no Havaí. Fiquei lá no meu primeiro mês, na minha primeira temporada. Já cheguei e peguei Jaws, a famosa onda de Pea’hi, a mais casca grossa do Havaí e umas das maiores do mundo. Consegui pegar altas ondas. Voltei ao Brasil, consegui patrocínio e decidi que era aquilo que eu queria mesmo para a minha vida: pegar onda grande.

Como foi surfar aquela montanha de água de 60 pés (cerca de 20m) no braço em Jaws, em 15 de janeiro de 2016, em um dos maiores swello da história?
Aquele dia foi bem especial. Foi o dia do aniversário do Gordo, 15 de janeiro. Foi o melhor dia da minha vida, estava a maior vibe, com todos os meus amigos, e deu tudo certo. No começo, rolaram uns imprevistos… Na hora de pular nas pedras, eu quebrei a quilha da prancha e tive de subir o “cliff” inteiro de volta, arrumar outra prancha… Mas me concentrei, a galera já tinha ido e eu fui no meu tempo. Esperei o momento certo, consegui entrar na hora certa e demorei uma hora e meia para pegar aquela onda. Eu estava posicionado para pegar a direita, estava bem lá fora, mas veio essa esquerda que parecia ser muito boa e eu não pensei duas vezes. Foi a onda da minha vida.

E a vaca em Puerto Escondido, em 3 de maio de 2015?
Foi o maior swell já registrado em Puerto Escondido nos últimos 20 anos, com um mar daquele tamanho e aquela potência de onda. Poucas pessoas entraram na água. Eu estava no quarto com o Gordo, o chamei e ele disse que estava muito cedo, que ia esperar clarear para ver o mar. Fui no escuro, com tudo alagado, a água do mar tinha destruído trailler, quiosque, arrastado até carro. A água estava chegando na piscina do hotel. Quando está bem grande lá, não tem canal ou lugar para entrar. Tive que dar uma volta, ir por onde saem os barcos e nadar 20 minutos para chegar no pico. Estava gigante, só tinha eu na água e depois de alguns minutos chegou o Twiggy. Estava assustador. Não tinha jet ski, só a gente, mas eu estava com uma vontade imensa de pegar uma onda, focado em pegar a onda da minha vida. Eu remei na onda certa, mas, por uma fração de segundos, não consegui completar o drop que achei que iria. O bico entrou na água e eu tomei o maior vacão, caí para a frente e saí quicando na água. Resumindo: foi o pior caldo da minha vida.

Você pensou que iria morrer nesse dia?
Por um momento, ali durante o caldo, eu pensei: “Cara, está demorando muito”. Mas consegui subir (risos). Eu lembro que durante o caldo eu fiquei com a cabeça presa no colete, o maior bololô. Eu fiquei bastante tempo debaixo d’água. A sorte é que eu consegui encostar com o pé no fundo e subi direto para a superfície, mas subi já com uma onda imensa na minha cabeça e só tinha um momento ali para respirar. Respirei, tomei essa, tomei mais uma e consegui parar em uma corrente. Essa corrente foi Deus. A corrente me jogou lá para fora e eu tive que sair nadando, tudo de novo, mas estava lá fora e foi tudo mais tranquilo.

E tiveram ainda vacas pesadas em Jaws. Qual foi a pior?
Teve uma, se não me engano, na minha terceira temporada. Era um swell de oeste que a galera ficou mais em Oahu, porque um swell de oeste costuma entrar melhor em Oahu do que em Jaws (pico em outra ilha havaiana, Maui). Mas algumas pessoas foram nesse dia para Maui. O swell estava perfeito, tinham altos tubos e eu tomei uma vaca inesquecível. Fiz tudo certo, fiz a linha da onda, fiz o drop, cavei e botei na linha, só que eu subi um pouco demais e eu lembro que eu fui arremessado. Eu praticamente dei um backflip no ar e caí na base da onda, de uma onda gigante… Não foi um caldo muito longo, mas me assustou bastante, porque foi em queda livre. Acho que um dos caldos que me marcou mais. Backflip em Jaws, inovei (risos).

Antes do Havaí, poderia citar uma viagem marcante no surfe?

Fui com o pai para o Peru, aos 13 anos. Fomos passar 10 dias no Peru com uns amigos militares dele. Foi a primeira vez que eu vi linhas de ondas perfeitas e fiquei apaixonado. Na época, eu só surfava aqui e eu nunca tinha visto um pointbreak perfeito. Foi uma loucura. Um sonho realizado. E depois disso eu fui para a Costa Rica com ele e comecei a competir, a fazer o treinamento mesmo e fui ao Peru treinar com meus treinadores.

1c20f503bd9584ca791a775379360180Você imaginava que se tornaria um big rider?

Eu sempre gostei de pegar onda grande. Nessa minha segunda trip para o Peru, eu fui com o meu treinador e ele me deu na mão uma 8’6, tinha um swell se eu não me engano de 10 pés, e eu emocionado. Eu tinha 14 anos. Aqueles 10 pés ali para mim eram como se fosse 20 pés gigante. Fiquei apaixonado, lembro que eu já tinha remado com uma gunzeira na época, e é um surfe completamente diferente, uma prancha bem maior, um volume de água bem maior. É um outro surfe. Depois disso, voltei para o Brasil, resolvi fazer uma 8’6 e foi com essa prancha que eu peguei aquela onda que ganhei a promoção do Gordo. Foi um passo de cada vez.

Como é para um jovem de 21 anos, completados em março, viver rodeado por surfistas de uma geração bem mais velha?
O meio do surfe, ainda mais em ondas grandes, é muito pequeno, então são os caras mais veteranos, mais antigos no circuito. Mas está chegando uma nova geração agora, o Lucas Chumbo, meu parceirão, crescemos competindo juntos, também tem o Kai Lenny e os caras do Havaí, tem o Albee Layer, o Tyler (Larronde), vários caras. Uma geração que está chegando com tudo, com muito gás e muita técnica envolvidas. Eu acho que só vai elevar o surfe de ondas grandes daqui a um tempo. Vamos ver umas atrocidades daqui a uns 10 anos, bem absurdas, tipo Teahupoo gigante, Jaws gigante na remada, vai ser interessante (risos).

Quais são os equipamentos indispensáveis na modalidade mais extrema do surfe?
Para a segurança, um colete de inflar e um colete de espuma. O equipamento ideal para surfar um dia gigante em Jaws é botar um colete de espuma embaixo do de inflar, que tem um tubinho de oxigênio que você puxa e vai mais rápido para a superfície. O colete de espuma demora um pouco, mas você vai. Tem que cair com os dois porque se você apagar e não conseguir puxar o tubo, tem o de espuma que sobe sozinho, naturalmente. O equipamento é fundamental em mar grande, além de uma prancha boa. Se puder, uma havaiana. Os caras lá conhecem e fazem para a própria onda, com um estrepe bom, de 12 a 15 pés. Não precisa de muito, mas é um equipamento caro. Uma prancha hoje está custando uns 800 dólares, em um surfe que você pode quebrar em uma caída. Tem gente que prefere as pesadas. Eu não gosto de prancha tão pesada, mas tem a de tow-in que é menor, e a galera bota chumbo para evitar os “bumps”, para não ir quicando na onda. Se você for com uma prancha levinha, ela sai voando. Uma pesada vai rasgando a água, traçando a linha.

Levou muitos tombos? Se machucou feio em algum?
Já tomei alguns tombos e alguns pontos. Vários na cabeça, tomei aqui na mão, no Gardenal, no ano passado… Já tomei alguns pontos no Havaí, vários na real, mas o que eu fiquei mais tempo na cama foi uma vaca que eu machuquei o joelho e o tornozelo no México. Passei um mês e meio, mais um tempo de fisioterapia, demorei ali uns dois meses para voltar a surfar legal. Cavei numa onda, entrei de mal jeito e bati no teto. Meu joelho foi parar no meio da prancha e eu já senti um estalo sinistro. Um amigo meu fotógrafo que estava comigo me socorreu e me tirou dali. Saí mancando e doeu bastante, foi o que mais me deixou longe do surfe. No Gardenal foi sinistro também, mas foi só ralado e curou bem rápido, tive que ficar duas semanas fora da água, mas doeu bastante na hora de limpar no hospital… O meu braço inteiro… Parecia que eu tinha tomado um tombo de moto. Me perguntavam se eu tinha tido um acidente de moto porque não parecia ser no surfe (risos). Foi bem sinistro. Mas nunca quebrei nada. Só fissurei o pé, mas nem considero.

Se não fosse o surfe, o que você faria da vida?
Eu tenho um sonho ainda de pilotar helicóptero. Acho que é um sonho que eu ainda vou realizar, tirar a minha carteira, a minha licença… Se não fosse o surfe e o helicóptero, não sei se eu sou muito bom em futebol, mas o meu pai queria que eu fosse jogador, mas não sei. O surfe é a minha vida.

Quando você tirar a sua licença de piloto de helicóptero, você pode fazer como o Laird Hamilton, que já praticou tow-in com helicóptero. Quem sabe no futuro…
Sim, amarra uma corda no avião e vai (risos). Já pensei em saltar de paraquedas, pretendo saltar de paraquedas daqui a uns anos, e sei lá, descer em uma onda direto pelo paraquedas (risos). Já descer com a prancha no pé e soltar na onda. Nunca pilotei, mas é um sonho de moleque. Entrei em um helicóptero uma vez e fiquei apaixonado. Ninguém da minha família é piloto, mas eu tenho essa paixão.

Onde você se imagina fazendo isso?
Em Jaws, que é uma onda mais perfeita. Seria um pouco mais fácil, mas mesmo assim seria um pouco difícil. Jaws foi disparado a onda que eu mais gostei de surfar.

Ondas prediletas? Sonhos?
Tenho bastante vontade de conhecer Teahupoo, no Taiti, e Cloudbreak, Fiji, onde teve a última etapa do Circuito Mundial de Surfe (CT). São as duas que eu mais quero conhecer. Eu tenho que ir para o Taiti. Na primeira oportunidade que eu tiver, quero ir lá conhecer, pegar um mar gigante, mas primeiro eu tenho que conhecer e saber como funciona a onda. Não quero chegar lá no dia gigante sem saber. Fora que é um lugar paradisíaco, com água cristalina e a melhor onda do mundo. É a onda mais perfeita do mundo, uma esquerda, quadrada, o tipo de onda que eu gosto.

Como foi a preparação para a primeira etapa do circuito no México?
Eu fiz bastante natação, porque não posso ficar parado só surfando no Brasil. Faço um treinamento específico. Carrego peso embaixo d’água, faço os estilos de natação, tipo crawl, apneia e também um treinamento físico. Puxo elástico, mas não pego muito peso. Pego um pesinho ou outro, trabalho com bola e de vez em quando faço ioga, mas não muito. Eu já fiz um tempo direto, é bom aprender os movimentos e as respirações que ajudam na hora de tomar uma onda na cabeça, a controlar o ar e a respirar certinho. Esses treinos fazem a diferença em um dia grande. A gente pega o mesmo peso que a galera malha nas academias, mas na água, correndo, trabalha com paraquedas, vai nadando na apneia, atravessando piscina… É uma natação voltada mais para o surfe mesmo. E apneia estática. Sempre no final do treino a gente dá uma relaxada e vê quem consegue ficar mais tempo debaixo da água. Já fiquei 3 minutos e meio, mas tem uma galera aí que consegue ficar 5. Eu já vi o Gordo ficar 4 pouco. Gordo é pescador e mergulhador, ele é sinistro.

Tem algum hobby?

Eu já tentei mergulhar com o Gordo, mas eu não me dei muito bem, não. Não peguei muito peixe e matei peixe errado, um peixe cheio de espinhas que não dava nem para comer. Mas eu tenho o material aí e uma hora eu vou (risos). E de hobby… Vira e mexe eu gosto de jogar uma bola com os amigos, jogar ping pong… Não gosto muito de videogame não, gosto de passar mais tempo na rua do que estar trancado em casa, prefiro passar mais tempo ao ar livre.

Como é o seu estilo de vida?
Um estilo livre. Eu moro em Vargem Grande, a 10 minutos da praia, não é perto, tenho que ir de carro, mas é um trajeto que eu já me acostumei bastante. Gosto de acordar, tomar meu café da manhã, pegar meu carro e surfar no Recreio ou na Prainha. Não são as ondas que a gente mais ama, mas eu estou em casa, tenho vários amigos, e vira e mexe dá umas valinhas iradas para a gente manobrar. Eu me amarro. Gosto bastante da minha vida por aqui, eu tenho a base no Rio, mas viajo para o México e no fim do ano eu vou para o Havaí. Mais para frente, quando for mais velho, acho que vou querer montar a minha família fora. De repente, Califórnia, não sei ainda.

Quais são os seus maiores ídolos?
Na vida, o meu pai e a minha mãe são meus ídolos, as pessoas que eu quero sempre estar perto. Meu pai foi a pessoa que mais me influenciou, eu surfo bem parecido com ele. Ele tem a base bem fechadinha, foi o cara que me ensinou a surfar e a minha infância inteira foi com ele na praia, foi um cara que me inspirou bastante. No surfe, os meus ídolos são Shane Dorian, Clay Marzo, Mason Ho, Andy Irons, tenho vários…

Qual o seu maior sonho de carreira?
Me tornar campeão mundial. Todo o cara que está ali correndo no circuito, todos os anos, dando um gás, acho que ele o objetivo é ser campeão mundial… Ser campeão mundial várias vezes, não é só uma (risos)…. Eu tenho esse sonho e se um dia eu chegar lá poder ajudar os outros. Abrir um centro de treinamento de surfe aqui no recreio que é uma coisa que não tem, para incentivar a galera a iniciar no surfe, e a melhor profissão do mundo para mim.

O que você espera de Puerto Escondido?
Estou animadão, vai entrar um swell de sul que é o mais irado para lá. Não vai estar grandão, mas vai estar com uns 3m. Estou amarradão, vão dar altas ondas. Eu amo estar no México, tenho vários amigos. Espero que esta temporada seja a melhor possível. Estou sempre com a autoestima lá em cima para vir o melhor para mim. Se for com pensamento negativo atrai, né? Acho que vai ser a melhor temporada de todas.

Quais são as apostas para este ano? Quem você apontaria como favoritos ao título?
Onda grande é imprevisível, mas os caras que sempre estão todo ano ali batendo ali na porta são o Twiggy, que foi campeão mundial agora, o Greg Long, que já foi campeão várias vezes, Damien Hobgood, ex-top do CT que surfa muito e pega onda grande também e tem que ficar esperto… Só tem casca grossa, qualquer um pode levar…. E tem o Chumbinho que é a revelação deste ano e vai para o primeiro ano no circuito. Ele vai chegar com tudo, mas eu também vou chegar com tudo.

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